terça-feira, 4 de junho de 2013

Das imprevisíveis sortes naturais e aleatórias

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Ensenada, Petrohué




            Um pouco desiludidos pela “normalidade” de Puerto Varas, depressa decidimos galgar caminho de novo em direcção aos lagos da cordilheira. À saída da cidade, vimos num grande painel informativo que tinha umas cores que não jogavam muito a nosso favor. As imprevisibilidades perseguiam-nos e desta vez a neve das avalanches provocada pelo degelo do vulcão Osorno era a protagonista. As estradas estavam cortadas.Por essa razão não pudemos apanhar um autocarro directo para Petrohué, para vermos o lago de Todos los Santos. Disseram-nos que talvez no dia seguinte a estrada estivesse desimpedida mas não nos puderam dar garantias. Assim sendo, apanhamos uma micro para Ensenada, que ficava a caminho.
            Ensenada é basicamente uma estrada acompanhada de algumas casas com  praias semi privadas no lago Llanquihue. Chegamos ao final da tarde e resolvemos procurar imediatamente um lugar para acampar. Dirigimo-nos para a praia e vimos o lago que mais parecia nesse dia um mar, com ondas fortes e raivosas. De fundo, um céu de baunilha com nuvens teatrais. Como havia chovido bastante, havia algumas linhas de água que se deslocavam em direcção ao lago. Atrás de nós só havia casas com os seus respectivos jardins privados. Não nos parecia de todo uma boa opção para acampar e ao longe, no final da praia, podíamos ver vegetação, indicando uma zona mais propícia ao nosso estilo de acampamento. O tempo foi escurecendo e caminhamos decididos até que nos deparamos com uma linha de água que havia tomado as proporções de um pequeno riacho. A força com que corria era imensa e molhar os pés, a roupa ou as mochilas era a última coisa que queríamos. Após magicar sobre as possíveis soluções acabamos por perceber que teríamos de saltar o riacho e atirar as malas para o outro lado. Acompanhou-nos sempre um cão, meio amigável, meio molestoso. O dia estava a acabar, assim como a luz natural e por fim ganhamos coragem e saltamos o riacho. Todos molhamos os pés, mas como saltamos descalços pudemos poupar o calçado. Seguimos então, convencidos de que bastaria chegar àquela massa de árvores para montar a tenda imediatamente.
            Ao chegar ao lugar, vimos que era muito rochoso e denso. Sem nada a perder, entramos na mancha negra, acompanhados de uma lanterna. Caminhamos um pouco até nos depararmos com uma clareira perfeita onde o lago batia numa pequena praia. Seguimos um pouco até nos apercebermos que estávamos num terreno privado. Assustamo-nos um pouco ao ver uma casa e um carro. Não havia luzes nem sinal de estar alguém. Discutimos um pouco a possibilidade de acamparmos nesse lugar. Entre algumas das razões que nos demoveram foi a eventual existência de cães a guardar o terreno. Seguimos por outra fraga, próxima ao lago. Estava noite cerrada e felizmente não chovia. Após caminhar uns minutos encontramos outra clareira com o terreno plano. O solo era de musgo, o que nos pareceu agradável. Com alguma disciplina, montamos a pobre tenda, sem perceber muito bem onde realmente estávamos. Havia ao lado um varandim que dava para o lago, o qual continuava feroz com ondas a bater nas rochas. Lembro-me que enquanto apalpava um banco feito de tronco sentir algo viscoso. Fiquei um pouco enojado, sem perceber no que tinha tocado. Limpei a mão e tentei não pensar no que seria.
            Estávamos todos com fome. Tínhamos alguns enlatados que havíamos comprada em Puerto Varas e como não chovia decidimos caminhar para fora e tentar perceber onde estávamos. Caminhamos pelo terreno plano, até que demos com um pequeno casoto de madeira com uma grande placa ao lado que dizia “Parque Nacional Vicente Pérez Rosales”. Indicava o caminho para o vulcão Osorno. Outro placa mais pequena, que apontava para onde tínhamos a nossa tenda, dizia “mirador”. Percebemos onde tínhamos acampado e rimo-nos, sem nos preocuparmos muito. Se houvesse problemas, saberíamos no dia seguinte.
            Como disse antes, Ensenada era uma estrada. Assim sendo, sentamo-nos em cima de uns troncos, onde um candeeiro nos dava luz e aí comemos o nosso pão com atum, um verdadeiro pitéu. Vínhamos bem alimentados de Frutillar, pelo que não ficamos mal com o belo do atum. Lembro-me de algumas conversas que íamos tendo, a maioria delas sobre regionalismos hispânicos e italianos, acompanhado de respectivas consequências linguísticas. O S. teve algum tempo a justificar o facto de apoiar a “hispanilização” de termos ingleses, tais como “güisqui” e “chaquespéare”. Fomos para a tenda de barriga cheia e dormimos al tiro.
            Nessa noite choveu bastante e como sempre molhamo-nos um pouco. Como já estávamos habituados, não nos meteu confusão. Saímos para fora e vimos o belo lugar onde havíamos acampado. O mirador era bonito e arranjado, com uma varanda para o lago Llanquihue que agora estava calmo e nos mostrava uma paisagem lindíssima. Notei que, agarradas ao lado de fora da tenda, havia algumas lesmas grandes. Nesse momento, soube em que é que tinha tocado na noite anterior. Desfizemos a tenda e, sem medo, fomos até à casa do guarda da entrada do parque perguntar sobre o estado da estrada. O senhor foi muito simpático, oferecendo-nos água e perguntando-nos se tínhamos passado bem a noite. Para alegria nossa, informou-nos que a neve tinha já derretido e que podíamos passar até Petrohué. Ficamos com uns mapas do parque e, não tendo mais nada para ver em Ensenada, ficamos à espera de um bus que nos levasse mais além.
            Um pouco antes de chegar a Petrohué, paramos para ver os Saltos de Petrohué, uma atração a não perder. À entrada do Parque, lembro-me que nos cobraram bilhete. Nesse momento, S. num momento de resignação, protesta sobre isso, afirmando que em Espanha não se paga a entrada nos Parques nacionais. De facto, tinha a sua razão, mas nunca pensei que a sua atitude valesse de algo. Foi como mais um dos seus acessos de rebeldia amadora.
            O lugar era muito bonito, com altas montanhas muito verdes. Por momentos relembrou-me o Machu Picchu, pela densa e verde floresta. Caminhamos um pouco, sempre com imagens lindíssimas do melhor que a natureza deste continente pode oferecer. Após alguns minutos, chegamos aos Saltos del Petrohué. Havia umas rochas com algumas guardas onde pudemos ver o espectáculo. Lembro-me de ficarmos maravilhados com todo o cenário. O tempo estava incrível e finalmente o sol havia saído para nos alegrar (e secar!). Aproveitamos ao máximo e ficamos deitados nas rochas. Ao fundo víamos o imponente vulcão Osorno a surgir por entre as nuvens. A água brotava num azul turquesa magnífico e chegamos mesmo a ver, por entre as negras rochas, um pequeno mas nítido arco-íris.


            Regressamos contentes à entrada e tentamos a sorte a pedir boleia. Não demorou muito até parar uma carrinha que nos levou até Petrohué. Tinha como missão buscar alguns turistas que estavam no lago de Todos los Santos para levá-los de volta a Puerto Varas. O senhora era muito simpático. Ao chegar a Petrohué, tivemos uma surpresa! À entrada da pequena aldeia estava a C., uma amiga alemã que conhecíamos de Valparaíso. Tal como nós, andava a mochilear com o F., um chileno, colega nosso da Escuela. Foi uma bela coincidência, que se tornou ainda melhor principalmente pelo tempo agradável que fazia. O lago de Todos los Santos era lindíssimo, com uma cor azul muito delicada e um recorte verde montanhoso como fundoadora.
O  e que enquanto apalpava a C., uma amiga alems, um apeagens ltos relembrou-me o maia amadora.
O  e que enquanto apalpav. De um lado, víamos o rio Petrohué a juntar-se ao lago, numa mistura do seu verde azulado turquesa ao azul pacífico. Do lado direito, o imponente vulcão Osorno, espiava-nos, com o seu cone quase perfeito. Ficamos muito tempo a admirar a paisagem, tentando imaginar a épica viagem de Che Guevara. Este foi precisamente o lago que ele atravessou, quando primeiro chegou ao Chile vindo da Argentina. Mais uma vez sonhamos com essa travessia. Sonho que eu cada vez mais partilhava com o S., sem recriminações como antes.
Aproveitamos o sol para gerar um pouco de vitamina D e decidimos tentar as águas do lago. Para mim, foi um entrar, mergulhar e sair a correr. A água era gelada, mas o sol secou-nos e acarinhou-nos a pele. Partilhamos alguma comida e passamos um bom momento.

A C. e o F. haviam chegado quase inteiramente de boleia. Falamos um pouco das nossas experiências e eles, que estavam já a voltar para cima, deram-nos dicas para a ilha de Chiloé, que ia ser o nosso próximo destino. Na despedida, de amigos passamos a inimigos, pois éramos agora rivais na caça à boleia. Eles decidiram ficar na aldeia e ir falando com as pessoas. Nós decidimos ir andando pela estrada, tentando a sorte enquanto os carros passavam. Andados alguns metros, vimo-los passar gritando da parte de trás de uma carrinha de caixa aberta. Ficamos contentes e ao mesmo tempo chateados. Eles tinham-nos indubitavelmente ganho. Ainda assim, após alguns quilómetros a pé, parou uma carrinha que nos aceitou levar até um cruzamento. Aceitamos e entramos na parte de trás. As pessoas eram muito simpáticas e curiosas. Falamos bastante e foi muito agradável. Quando chegamos ao dito cruzamento, tivemos outra surpresa ao ver de novo a C. e o F. a pedir boleia. Como não bastasse, a sorte voltou a sorrir-lhes, pois a carrinha onde íamos seguia para norte, na direcção que eles pretendiam! Trocamos assim de posições, e como um serviço de estafeta, entregamos-lhe a nossa boleia.
            Estávamos de novo próximos de Ensenada. Levantamos o dedo e um Jeep alugado por um casal de turistas chilenos parou e levou-nos até Puerto Varas. Apesar de simpáticos, eram um pouco apáticos e não falamos muito. De regresso a Puerto Varas, desinteressados pela cidade já visitada, apanhamos um bus para Puerto Montt, onde a aventura se iria desenvolver de forma incógnita.


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