segunda-feira, 22 de abril de 2013

"¿Que weá, weon?" - Ep.6

"Incêndios"

Não poderia haver mais ansiado regresso a esta rubrica que não contemplasse este malfadado tema, assim como, seguindo as tradições, não poderia também deixar de apresentar os habituais patrocínios, sendo que neste episódio, contamos com a veloz presença do jornal "La Estrella" e da querida contribuição da empresa "Esval".



Falei no número anterior da condição sísmica do Chile (aqui), e penso ter deixado uma ideia do carinho que fui nutrindo pelas precárias casas de Valparaíso. De facto, elas vão resistindo às agressividades telúricas e parte dessa resistência deve-se à leveza da construção.
Existem vários exemplos na história que nos levam a considerar algumas catástrofes como momentos de grande renovação e progresso de certas cidades. Obviamente os meios e as perdas não justificam os resultados obtidos a longo prazo, mas não podemos deixar de ficar fascinados com, por exemplo, o plano pombalino da baixa lisboeta. No caso de Valparaíso, a uma escala muito menos monumental, aconteceu que em 1906, por força de um enorme terramoto, se tenha reconstruído grande parte de Valparaíso, adoptando uma técnica constructiva de origem estadunidense chamada "ballon frame". Uma estrutura leve de madeira e resistente a sismos que tinha como grande vantagem o uso de perfis de madeira mais pequenos ligados apenas por pregos e não por juntas complexas. Um sistema eficaz e muito fácil de aplicar, que levou a uma reconstrução de Valparaíso num estilo ecléctico que misturou muitas influências clássicas europeias, incluindo o estilo victoriano, com a boa vontade de um Chile que crescia a passos largos.
Além dos sismos, Valparaíso também contou com numerosos ataques piratas, acompanhados de saques horrendos e pouco depois do Chile obter a sua independência, o velho porto foi bombardeado pelos navios espanhóis, recalcando a sua condição de fragilidade e infortúnio.
Apesar de hoje em dia se viverem dias muito mais calmos, Valparaíso parece guardar ainda réstias amarguradas desse infortúnio. Talvez seja só por descuido que Valparaíso continua a ser frágil. As suas casas, tão acarinhadas e resistentes aos sismos, tornam-se em autênticas caixas de fósforos quando o cuidado é pouco.
Os incêndios em Valparaíso são uma coisa comum. Isto foi algo que rapidamente aprendemos ao chegar lá. Não precisamos de o ter ouvido da boca dos porteños, pois da varanda da nossa primeira casa, pudemos ver alguns desses incêndios em tempo real. Lembro-me de ter presenciado pelo menos dois no período de um mês. Sem contar com os inúmeros edifícios queimados que íamos encontrando só no trajecto casa-escola.

Mais tarde, ao ver um interessante livro de desenhos de Valparaíso do artista Renzo Pechenino, conhecido por Luka, deparo-me com uma perspectiva muito interessante que para além de retratar muito bem uma particularidade visual de Valparaíso, retrata também a normalidade da visão de um incêndio na plan, como sendo algo "típico".

© Renzo Pechenino

De facto, é triste quando uma cidade possuí em si a condição de incêndio como algo "típico". Mas tal como todas as coisas típicas, tradições criam-se à sua volta e algumas delas interessantes e complexas.

Sendo que Valparaíso foi "colonizado" por emigrantes essencialmente ingleses, italianos, franceses, alemães e espanhóis, muitas das infra-estruturas essenciais à cidade foram fundadas por essas "nações".
Um desses exemplos é a Scuola Italiana, mas mais importante para esta rubrica, os quartéis de bombeiros foram exemplo disso! Existe assim, que me lembre, a bomba española e a bomba italiana.

Aliado também a outra particularidade desta cidade, os bombeiros de Valparaíso têm um ritual funerário único no Chile. Para explicar isto, teríamos de voltar muito atrás, quando Valparaíso de resumia ao seu puerto e alguns cerros, dos quais se destacava o concepcíon e o alegre. Fora do que nessa altura era a cidade, construiu-se assim o cemitério para enterrar os mortos. Para além da particularidade deste cemitério ser construído no topo de um morro (situação por si só rara), estava divido em dois, pois era a Valparaíso que chegavam os protestantes, enterrados no actual cementerio de disidentes. Os enterros eram feitos à noite, para ninguém presenciar. Os mortos eram levados numa mortalha cerro acima e enterrados no cemitério. Era uma prática pouco comum e de certa forma desonrosa para o morto. 
A pouco e pouco os enterros passaram-se a fazer à luz do dia, excepto os funerais dos bombeiros, que se fazem ainda hoje ao início da noite, acompanhado uma marcha fúnebre em que os bombeiros usam velas nos chapéus ou simplesmente torchas e a pouco e pouco marcham pelas ruas de Valparaíso, prestando honras ao defunto.
© Renzo Pechenino

Deixo um troço do seu livro de desenhos de Valparaíso, onde resume bem a presença da entidade "Incêndio" em Valparaíso, referindo até que o primeiro Quartel de Bombeiros de Valparaíso é provavelmente dos mais antigos do mundo.

© Renzo Pechenino

Após esta extensa introdução histórica, é tempo de falar da minha experiência neste tema. 
De facto, é algo do qual não posso escapar. A notícia de que eu estive envolvido num incêndio propagou-se de tal modo que muita gente, ainda agora, resume inocente e inconscientemente a minha experiência no Chile a um evento completamente surreal. A imagem que resumiria a minha experiência "erasmus" tendia a ser esta:




acompanhada desta:



Passado tanto tempo depois desse evento, não sei muito bem por onde começar. A conversa que tive com várias pessoas passou sempre pela resposta à pergunta: Como aconteceu tudo?
Antes do mais, quero deixar claro que não fui nenhum herói. Apesar de as pessoas quererem ouvir uma história épica de coragem e determinação heróica envolvendo riscos de vida, infelizmente a minha versão não é assim. Apesar de que, em termos técnicos, tudo o que está escrito na notícia é verdade, devo dizer que os jornalistas foram sensacionalistas e aproveitaram-se do facto de, no meio de uma situação comum em Valparaíso, existirem dois portugueses (eu e o J.) vindos do meio do nada que facilmente deram um ar mais exótico e insólito àquela que podia vir a ser apenas mais uma notícia.

O meu relato da história é o seguinte:

"Era de manhã, quase hora do almoço, quando o F. chegou à casa. Ele tinha estado alguns dias a viajar pelo norte e finalmente tinha chegado a casa. Eu e o J. estávamos contentes por poder mostrar as novas aquisições da casa, que incluía as panelas e utensílios de cozinha da minha casa antiga, um colchão e um estirador novo também da minha casa antiga entre outras coisas. Eu decidi fazer o almoço. Lembro-me que eram lentilhas com quinoa e um pouco de carne de vitela para dar sabor. Estava então na cozinha quando de repente vi fumo a vir da casa que estava por baixo do terreno da nossa casa. Fiquei preocupado e comecei a avisar o J. e o F. Ficamos muito exaltados e preocupados. Perguntei o número dos bombeiros e liguei logo. Com a maior calma do mundo expliquei que havia um incêndio em Miller. A senhora que me atendeu fez algumas perguntas que me atrapalharam mas às quais respondi com muita calma. Expliquei que a casa se situava no cruzamento com a avenida alemania ao pé do mirador camogli e dei os meus dados pessoais também. O F. nesse momento foi bem claro quando gritou: "Conchetumare, la casa va a arder!". Nesse momento, era apenas um pequeno fumo cinzento. Para mim, a imagem de um incêndio estava ainda muito longe, mas não foi por isso que não comecei logo a pensar no que fazer. A primeira coisa foi desligar a boca do fogão (a imagem de gás a explodir irrompeu na minha cabeça), logo a seguir baixei a tampa do meu computador, retirei o carregador e enfiei na mochila que estava no sofá. Olhei para o cadeirão e vi a minha bolsa da máquina fotográfica digital. Coloquei também na mochila e subi as escadas em direcção à rua. Estava tudo horrivelmente calmo. Cada um de nós correu para a saída e esporádicamente iamos gritando "fuego!" e outras coisas.



Depois de estar cá fora, ainda sem a casa a arder, tentei pensar no que poderia fazer. Deixei a mochila na rua e começamos automaticamente a desenrolar uma mangueira do jardim para tentar apagar o incêndio que estava já a produzir uma nuvem densa negra. O acto de tentar apagar um incêndio destes com uma mangueira de jardim reflecte bem o nosso desespero nesse momento. O meu cepticismo nesse momento foi negro e arrepiante. Num relance, lembrei-me de imensas coisas que havia deixado dentro de casa, entre as quais os meus documentos, e sem pensar muito entrei na casa que ainda não ardia. Depressa me demovi ao ver a espessa nuvem de fumo negro que se concentrava já na entrada. Senti-me impotente e recuei. 




Lá fora, os bombeiros ainda não tinham chegado mas havia já uma concentração de pessoas à volta do sucedido. Da casa ao lado da nossa ouvia-se uma senhora a gritar que estava presa. Gritava por ajuda e dizia, entre soluços, que não conseguia sair. A saída dessa casa, um piso de altura abaixo da rua, fazia-se pela zona onde se localizava o foco do incêndio. A única hipótese seria retirá-la através do pátio que tinha um muro para a entrada da nossa casa. Ao perceber isto, depressa fomos ajudar os homens que estavam a puxar a senhora para subir um muro de aproximadamente 3 metros de altura. Em primeiro lugar, retiramos a senhora, que com muito esforço escalou a parede de cimento e, completamente traumatizada, se deixou ficar a chorar encostada a alguém. De seguida veio o filho. Uma criança de cerca de 12 anos que não dizia uma única palavra. Hirto e teso, puxamo-lo o mais depressa possível para a rua, onde ficou nos braços da chorosa mãe.






Depois de isto, muita coisa sucedeu. Eu estava em choque, perdido e sem saber em que pensar. Um pouco desamparado também. Quando chegaram os bombeiros vinham muito atrapalhados. As chamas já tinham chegado à nossa casa e as coisas pareciam já não ter volta a dar. Para além de terem demorado a perceber o foco do incêndio (não os culpo pois a geografia do sítio é complicada), a boca de incêndio da avenida alemania estava seca, sendo que tiveram de fazer a ligação por baixo. Entretanto, no meio deste cenário caótico e infernal, os bombeiros ligam de repente as mangueiras dando lugar a um espectáculo surreal em que dois bombeiros caem ao chão arremessados pela mangueira descontrolada. "Isto não pode tar a acontecer" dizia-me o J. Mas de facto estava, e o pior foi quando entramos na casa do vizinho de cima, que tinha um terraço para o terreno da nossa casa, e vimos com os nossos olhos, o verdadeiro panorama da situação. Ver de cima a casa a arder foi das imagens mais horripilantes que eu já vi. A efemeridade e fugacidade de um objecto tão cheio de histórias, memórias e valores impressionou-me. Foi um momento muito triste e estranho. A pouco e pouco o incêndio foi-se apagando até estar completamente extinto. À medida que o alarme e a adrenalina baixaram começamos a perceber a real magnitude da tragédia. O J. confessou-me algumas das suas perdas. Eu próprio ia pensando nas minhas, mas apenas para me aperceber que tinha guardado duas coisa bem essenciais. Foi aos poucos que me lembrei de certas coisas que me iam picando o coração. O caderno de viagens! A minha Yashica FX-3! Os meus documentos! Metade do salário que eu tinha ganho nesse mês e muitas outras coisas. 




A casa ficou reduzida a meia dúzia de paredes. A princípio pensei que tudo tinha acabado ali, enterrado naquele manto negro. Mas o resto desse dia e dos próximos foi passado a vasculhar os escombros em busca de alguns pequenos tesouros. O ambiente era louco. Não era propriamente um ambiente de cortar à faca, muito pelo contrário, tentávamos suplantar a nossa angústia com algumas piadas. O modo como o chilenos reagiram a tudo foi para mim incrível. Foi de facto estranho e surreal, ao estilo de um filme. Vasculhamos intensamente os escombros. Entre os objectos mais incríveis que se salvaram conto os seguintes: uma caixa de fósforos intacta (a ironia!), um top de lantejoulas douradas que ninguém reclamou, uma laranja, uma caixa de 25 ovos cozidos pelo fogo, uma garrafa de vinho do Porto Ferreira Vintage que o meu pai me tinha oferecido e a qual obviamente esvaziamos logo, umas luvas de látex da cozinha, uma porco mealheiro de plástico derretido, onde recuperamos imensas moedas de 10 pesos cilhenos (uma verdadeira caça ao tesouro!), entre muitas muitas outras coisas.
Os dias que sucederam ao evento foram também eles muito surreais, mas também muito importantes. Durante um mês e meio, vivi numa espécie de condição hippie. Houve uma mobilização gigante por parte dos chilenos que nos ajudaram imenso oferecendo roupa. A municipalidad ofereceu-nos colchões e uma caixa com alimentos básicos. De noite andávamos a pular de casa em casa e durante o dia "vivíamos" nos escombros, tentando limpar o sítio para que viessem buscar os destroços. Acabamos por ficar definitivamente alojados na calle placilla, a poucos metros da queimada miller, numa lindíssima casa laranja com pássaros pintados, enquanto procurávamos uma nova casa. 

Essa casa eu nunca cheguei a conhecer, mas tentei ajudar e participar o mais que podia para a encontrar, sendo que chegamos mesmo a fazer uma festa de angariação de fundos chamada Miller After Fire e que correu bastante bem.

Em placilla passamos bons momentos e fomos muito bem recebidos pelos seus habitantes. Foi uma época curta mas intensa para mim com pessoas que apesar de não conhecer à muito tempo, vão certamente ficar na minha memória para sempre."


O período que se seguiu tem as suas próprias histórias. Foi o fim da minha estadia em Valparaíso e sem dúvida um dos momentos mais importantes da minha vida, onde aprendi muita coisa sobre mim, sobre os outros e sobre o mundo. Sobre o incêndio, àparte de tudo o que aprendi, ficou uma história para contar aos netos. Apesar de não ter sido o momento alto da minha experiência no Chile, foi sem dúvida o momento que tornou a minha experiência totalmente distinta de qualquer outro dos meus colegas.


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