terça-feira, 4 de junho de 2013

Das imprevisíveis sortes naturais e aleatórias

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Ensenada, Petrohué




            Um pouco desiludidos pela “normalidade” de Puerto Varas, depressa decidimos galgar caminho de novo em direcção aos lagos da cordilheira. À saída da cidade, vimos num grande painel informativo que tinha umas cores que não jogavam muito a nosso favor. As imprevisibilidades perseguiam-nos e desta vez a neve das avalanches provocada pelo degelo do vulcão Osorno era a protagonista. As estradas estavam cortadas.Por essa razão não pudemos apanhar um autocarro directo para Petrohué, para vermos o lago de Todos los Santos. Disseram-nos que talvez no dia seguinte a estrada estivesse desimpedida mas não nos puderam dar garantias. Assim sendo, apanhamos uma micro para Ensenada, que ficava a caminho.
            Ensenada é basicamente uma estrada acompanhada de algumas casas com  praias semi privadas no lago Llanquihue. Chegamos ao final da tarde e resolvemos procurar imediatamente um lugar para acampar. Dirigimo-nos para a praia e vimos o lago que mais parecia nesse dia um mar, com ondas fortes e raivosas. De fundo, um céu de baunilha com nuvens teatrais. Como havia chovido bastante, havia algumas linhas de água que se deslocavam em direcção ao lago. Atrás de nós só havia casas com os seus respectivos jardins privados. Não nos parecia de todo uma boa opção para acampar e ao longe, no final da praia, podíamos ver vegetação, indicando uma zona mais propícia ao nosso estilo de acampamento. O tempo foi escurecendo e caminhamos decididos até que nos deparamos com uma linha de água que havia tomado as proporções de um pequeno riacho. A força com que corria era imensa e molhar os pés, a roupa ou as mochilas era a última coisa que queríamos. Após magicar sobre as possíveis soluções acabamos por perceber que teríamos de saltar o riacho e atirar as malas para o outro lado. Acompanhou-nos sempre um cão, meio amigável, meio molestoso. O dia estava a acabar, assim como a luz natural e por fim ganhamos coragem e saltamos o riacho. Todos molhamos os pés, mas como saltamos descalços pudemos poupar o calçado. Seguimos então, convencidos de que bastaria chegar àquela massa de árvores para montar a tenda imediatamente.
            Ao chegar ao lugar, vimos que era muito rochoso e denso. Sem nada a perder, entramos na mancha negra, acompanhados de uma lanterna. Caminhamos um pouco até nos depararmos com uma clareira perfeita onde o lago batia numa pequena praia. Seguimos um pouco até nos apercebermos que estávamos num terreno privado. Assustamo-nos um pouco ao ver uma casa e um carro. Não havia luzes nem sinal de estar alguém. Discutimos um pouco a possibilidade de acamparmos nesse lugar. Entre algumas das razões que nos demoveram foi a eventual existência de cães a guardar o terreno. Seguimos por outra fraga, próxima ao lago. Estava noite cerrada e felizmente não chovia. Após caminhar uns minutos encontramos outra clareira com o terreno plano. O solo era de musgo, o que nos pareceu agradável. Com alguma disciplina, montamos a pobre tenda, sem perceber muito bem onde realmente estávamos. Havia ao lado um varandim que dava para o lago, o qual continuava feroz com ondas a bater nas rochas. Lembro-me que enquanto apalpava um banco feito de tronco sentir algo viscoso. Fiquei um pouco enojado, sem perceber no que tinha tocado. Limpei a mão e tentei não pensar no que seria.
            Estávamos todos com fome. Tínhamos alguns enlatados que havíamos comprada em Puerto Varas e como não chovia decidimos caminhar para fora e tentar perceber onde estávamos. Caminhamos pelo terreno plano, até que demos com um pequeno casoto de madeira com uma grande placa ao lado que dizia “Parque Nacional Vicente Pérez Rosales”. Indicava o caminho para o vulcão Osorno. Outro placa mais pequena, que apontava para onde tínhamos a nossa tenda, dizia “mirador”. Percebemos onde tínhamos acampado e rimo-nos, sem nos preocuparmos muito. Se houvesse problemas, saberíamos no dia seguinte.
            Como disse antes, Ensenada era uma estrada. Assim sendo, sentamo-nos em cima de uns troncos, onde um candeeiro nos dava luz e aí comemos o nosso pão com atum, um verdadeiro pitéu. Vínhamos bem alimentados de Frutillar, pelo que não ficamos mal com o belo do atum. Lembro-me de algumas conversas que íamos tendo, a maioria delas sobre regionalismos hispânicos e italianos, acompanhado de respectivas consequências linguísticas. O S. teve algum tempo a justificar o facto de apoiar a “hispanilização” de termos ingleses, tais como “güisqui” e “chaquespéare”. Fomos para a tenda de barriga cheia e dormimos al tiro.
            Nessa noite choveu bastante e como sempre molhamo-nos um pouco. Como já estávamos habituados, não nos meteu confusão. Saímos para fora e vimos o belo lugar onde havíamos acampado. O mirador era bonito e arranjado, com uma varanda para o lago Llanquihue que agora estava calmo e nos mostrava uma paisagem lindíssima. Notei que, agarradas ao lado de fora da tenda, havia algumas lesmas grandes. Nesse momento, soube em que é que tinha tocado na noite anterior. Desfizemos a tenda e, sem medo, fomos até à casa do guarda da entrada do parque perguntar sobre o estado da estrada. O senhor foi muito simpático, oferecendo-nos água e perguntando-nos se tínhamos passado bem a noite. Para alegria nossa, informou-nos que a neve tinha já derretido e que podíamos passar até Petrohué. Ficamos com uns mapas do parque e, não tendo mais nada para ver em Ensenada, ficamos à espera de um bus que nos levasse mais além.
            Um pouco antes de chegar a Petrohué, paramos para ver os Saltos de Petrohué, uma atração a não perder. À entrada do Parque, lembro-me que nos cobraram bilhete. Nesse momento, S. num momento de resignação, protesta sobre isso, afirmando que em Espanha não se paga a entrada nos Parques nacionais. De facto, tinha a sua razão, mas nunca pensei que a sua atitude valesse de algo. Foi como mais um dos seus acessos de rebeldia amadora.
            O lugar era muito bonito, com altas montanhas muito verdes. Por momentos relembrou-me o Machu Picchu, pela densa e verde floresta. Caminhamos um pouco, sempre com imagens lindíssimas do melhor que a natureza deste continente pode oferecer. Após alguns minutos, chegamos aos Saltos del Petrohué. Havia umas rochas com algumas guardas onde pudemos ver o espectáculo. Lembro-me de ficarmos maravilhados com todo o cenário. O tempo estava incrível e finalmente o sol havia saído para nos alegrar (e secar!). Aproveitamos ao máximo e ficamos deitados nas rochas. Ao fundo víamos o imponente vulcão Osorno a surgir por entre as nuvens. A água brotava num azul turquesa magnífico e chegamos mesmo a ver, por entre as negras rochas, um pequeno mas nítido arco-íris.


            Regressamos contentes à entrada e tentamos a sorte a pedir boleia. Não demorou muito até parar uma carrinha que nos levou até Petrohué. Tinha como missão buscar alguns turistas que estavam no lago de Todos los Santos para levá-los de volta a Puerto Varas. O senhora era muito simpático. Ao chegar a Petrohué, tivemos uma surpresa! À entrada da pequena aldeia estava a C., uma amiga alemã que conhecíamos de Valparaíso. Tal como nós, andava a mochilear com o F., um chileno, colega nosso da Escuela. Foi uma bela coincidência, que se tornou ainda melhor principalmente pelo tempo agradável que fazia. O lago de Todos los Santos era lindíssimo, com uma cor azul muito delicada e um recorte verde montanhoso como fundoadora.
O  e que enquanto apalpava a C., uma amiga alems, um apeagens ltos relembrou-me o maia amadora.
O  e que enquanto apalpav. De um lado, víamos o rio Petrohué a juntar-se ao lago, numa mistura do seu verde azulado turquesa ao azul pacífico. Do lado direito, o imponente vulcão Osorno, espiava-nos, com o seu cone quase perfeito. Ficamos muito tempo a admirar a paisagem, tentando imaginar a épica viagem de Che Guevara. Este foi precisamente o lago que ele atravessou, quando primeiro chegou ao Chile vindo da Argentina. Mais uma vez sonhamos com essa travessia. Sonho que eu cada vez mais partilhava com o S., sem recriminações como antes.
Aproveitamos o sol para gerar um pouco de vitamina D e decidimos tentar as águas do lago. Para mim, foi um entrar, mergulhar e sair a correr. A água era gelada, mas o sol secou-nos e acarinhou-nos a pele. Partilhamos alguma comida e passamos um bom momento.

A C. e o F. haviam chegado quase inteiramente de boleia. Falamos um pouco das nossas experiências e eles, que estavam já a voltar para cima, deram-nos dicas para a ilha de Chiloé, que ia ser o nosso próximo destino. Na despedida, de amigos passamos a inimigos, pois éramos agora rivais na caça à boleia. Eles decidiram ficar na aldeia e ir falando com as pessoas. Nós decidimos ir andando pela estrada, tentando a sorte enquanto os carros passavam. Andados alguns metros, vimo-los passar gritando da parte de trás de uma carrinha de caixa aberta. Ficamos contentes e ao mesmo tempo chateados. Eles tinham-nos indubitavelmente ganho. Ainda assim, após alguns quilómetros a pé, parou uma carrinha que nos aceitou levar até um cruzamento. Aceitamos e entramos na parte de trás. As pessoas eram muito simpáticas e curiosas. Falamos bastante e foi muito agradável. Quando chegamos ao dito cruzamento, tivemos outra surpresa ao ver de novo a C. e o F. a pedir boleia. Como não bastasse, a sorte voltou a sorrir-lhes, pois a carrinha onde íamos seguia para norte, na direcção que eles pretendiam! Trocamos assim de posições, e como um serviço de estafeta, entregamos-lhe a nossa boleia.
            Estávamos de novo próximos de Ensenada. Levantamos o dedo e um Jeep alugado por um casal de turistas chilenos parou e levou-nos até Puerto Varas. Apesar de simpáticos, eram um pouco apáticos e não falamos muito. De regresso a Puerto Varas, desinteressados pela cidade já visitada, apanhamos um bus para Puerto Montt, onde a aventura se iria desenvolver de forma incógnita.


+Fotografias

segunda-feira, 22 de abril de 2013

"¿Que weá, weon?" - Ep.6

"Incêndios"

Não poderia haver mais ansiado regresso a esta rubrica que não contemplasse este malfadado tema, assim como, seguindo as tradições, não poderia também deixar de apresentar os habituais patrocínios, sendo que neste episódio, contamos com a veloz presença do jornal "La Estrella" e da querida contribuição da empresa "Esval".



Falei no número anterior da condição sísmica do Chile (aqui), e penso ter deixado uma ideia do carinho que fui nutrindo pelas precárias casas de Valparaíso. De facto, elas vão resistindo às agressividades telúricas e parte dessa resistência deve-se à leveza da construção.
Existem vários exemplos na história que nos levam a considerar algumas catástrofes como momentos de grande renovação e progresso de certas cidades. Obviamente os meios e as perdas não justificam os resultados obtidos a longo prazo, mas não podemos deixar de ficar fascinados com, por exemplo, o plano pombalino da baixa lisboeta. No caso de Valparaíso, a uma escala muito menos monumental, aconteceu que em 1906, por força de um enorme terramoto, se tenha reconstruído grande parte de Valparaíso, adoptando uma técnica constructiva de origem estadunidense chamada "ballon frame". Uma estrutura leve de madeira e resistente a sismos que tinha como grande vantagem o uso de perfis de madeira mais pequenos ligados apenas por pregos e não por juntas complexas. Um sistema eficaz e muito fácil de aplicar, que levou a uma reconstrução de Valparaíso num estilo ecléctico que misturou muitas influências clássicas europeias, incluindo o estilo victoriano, com a boa vontade de um Chile que crescia a passos largos.
Além dos sismos, Valparaíso também contou com numerosos ataques piratas, acompanhados de saques horrendos e pouco depois do Chile obter a sua independência, o velho porto foi bombardeado pelos navios espanhóis, recalcando a sua condição de fragilidade e infortúnio.
Apesar de hoje em dia se viverem dias muito mais calmos, Valparaíso parece guardar ainda réstias amarguradas desse infortúnio. Talvez seja só por descuido que Valparaíso continua a ser frágil. As suas casas, tão acarinhadas e resistentes aos sismos, tornam-se em autênticas caixas de fósforos quando o cuidado é pouco.
Os incêndios em Valparaíso são uma coisa comum. Isto foi algo que rapidamente aprendemos ao chegar lá. Não precisamos de o ter ouvido da boca dos porteños, pois da varanda da nossa primeira casa, pudemos ver alguns desses incêndios em tempo real. Lembro-me de ter presenciado pelo menos dois no período de um mês. Sem contar com os inúmeros edifícios queimados que íamos encontrando só no trajecto casa-escola.

Mais tarde, ao ver um interessante livro de desenhos de Valparaíso do artista Renzo Pechenino, conhecido por Luka, deparo-me com uma perspectiva muito interessante que para além de retratar muito bem uma particularidade visual de Valparaíso, retrata também a normalidade da visão de um incêndio na plan, como sendo algo "típico".

© Renzo Pechenino

De facto, é triste quando uma cidade possuí em si a condição de incêndio como algo "típico". Mas tal como todas as coisas típicas, tradições criam-se à sua volta e algumas delas interessantes e complexas.

Sendo que Valparaíso foi "colonizado" por emigrantes essencialmente ingleses, italianos, franceses, alemães e espanhóis, muitas das infra-estruturas essenciais à cidade foram fundadas por essas "nações".
Um desses exemplos é a Scuola Italiana, mas mais importante para esta rubrica, os quartéis de bombeiros foram exemplo disso! Existe assim, que me lembre, a bomba española e a bomba italiana.

Aliado também a outra particularidade desta cidade, os bombeiros de Valparaíso têm um ritual funerário único no Chile. Para explicar isto, teríamos de voltar muito atrás, quando Valparaíso de resumia ao seu puerto e alguns cerros, dos quais se destacava o concepcíon e o alegre. Fora do que nessa altura era a cidade, construiu-se assim o cemitério para enterrar os mortos. Para além da particularidade deste cemitério ser construído no topo de um morro (situação por si só rara), estava divido em dois, pois era a Valparaíso que chegavam os protestantes, enterrados no actual cementerio de disidentes. Os enterros eram feitos à noite, para ninguém presenciar. Os mortos eram levados numa mortalha cerro acima e enterrados no cemitério. Era uma prática pouco comum e de certa forma desonrosa para o morto. 
A pouco e pouco os enterros passaram-se a fazer à luz do dia, excepto os funerais dos bombeiros, que se fazem ainda hoje ao início da noite, acompanhado uma marcha fúnebre em que os bombeiros usam velas nos chapéus ou simplesmente torchas e a pouco e pouco marcham pelas ruas de Valparaíso, prestando honras ao defunto.
© Renzo Pechenino

Deixo um troço do seu livro de desenhos de Valparaíso, onde resume bem a presença da entidade "Incêndio" em Valparaíso, referindo até que o primeiro Quartel de Bombeiros de Valparaíso é provavelmente dos mais antigos do mundo.

© Renzo Pechenino

Após esta extensa introdução histórica, é tempo de falar da minha experiência neste tema. 
De facto, é algo do qual não posso escapar. A notícia de que eu estive envolvido num incêndio propagou-se de tal modo que muita gente, ainda agora, resume inocente e inconscientemente a minha experiência no Chile a um evento completamente surreal. A imagem que resumiria a minha experiência "erasmus" tendia a ser esta:




acompanhada desta:



Passado tanto tempo depois desse evento, não sei muito bem por onde começar. A conversa que tive com várias pessoas passou sempre pela resposta à pergunta: Como aconteceu tudo?
Antes do mais, quero deixar claro que não fui nenhum herói. Apesar de as pessoas quererem ouvir uma história épica de coragem e determinação heróica envolvendo riscos de vida, infelizmente a minha versão não é assim. Apesar de que, em termos técnicos, tudo o que está escrito na notícia é verdade, devo dizer que os jornalistas foram sensacionalistas e aproveitaram-se do facto de, no meio de uma situação comum em Valparaíso, existirem dois portugueses (eu e o J.) vindos do meio do nada que facilmente deram um ar mais exótico e insólito àquela que podia vir a ser apenas mais uma notícia.

O meu relato da história é o seguinte:

"Era de manhã, quase hora do almoço, quando o F. chegou à casa. Ele tinha estado alguns dias a viajar pelo norte e finalmente tinha chegado a casa. Eu e o J. estávamos contentes por poder mostrar as novas aquisições da casa, que incluía as panelas e utensílios de cozinha da minha casa antiga, um colchão e um estirador novo também da minha casa antiga entre outras coisas. Eu decidi fazer o almoço. Lembro-me que eram lentilhas com quinoa e um pouco de carne de vitela para dar sabor. Estava então na cozinha quando de repente vi fumo a vir da casa que estava por baixo do terreno da nossa casa. Fiquei preocupado e comecei a avisar o J. e o F. Ficamos muito exaltados e preocupados. Perguntei o número dos bombeiros e liguei logo. Com a maior calma do mundo expliquei que havia um incêndio em Miller. A senhora que me atendeu fez algumas perguntas que me atrapalharam mas às quais respondi com muita calma. Expliquei que a casa se situava no cruzamento com a avenida alemania ao pé do mirador camogli e dei os meus dados pessoais também. O F. nesse momento foi bem claro quando gritou: "Conchetumare, la casa va a arder!". Nesse momento, era apenas um pequeno fumo cinzento. Para mim, a imagem de um incêndio estava ainda muito longe, mas não foi por isso que não comecei logo a pensar no que fazer. A primeira coisa foi desligar a boca do fogão (a imagem de gás a explodir irrompeu na minha cabeça), logo a seguir baixei a tampa do meu computador, retirei o carregador e enfiei na mochila que estava no sofá. Olhei para o cadeirão e vi a minha bolsa da máquina fotográfica digital. Coloquei também na mochila e subi as escadas em direcção à rua. Estava tudo horrivelmente calmo. Cada um de nós correu para a saída e esporádicamente iamos gritando "fuego!" e outras coisas.



Depois de estar cá fora, ainda sem a casa a arder, tentei pensar no que poderia fazer. Deixei a mochila na rua e começamos automaticamente a desenrolar uma mangueira do jardim para tentar apagar o incêndio que estava já a produzir uma nuvem densa negra. O acto de tentar apagar um incêndio destes com uma mangueira de jardim reflecte bem o nosso desespero nesse momento. O meu cepticismo nesse momento foi negro e arrepiante. Num relance, lembrei-me de imensas coisas que havia deixado dentro de casa, entre as quais os meus documentos, e sem pensar muito entrei na casa que ainda não ardia. Depressa me demovi ao ver a espessa nuvem de fumo negro que se concentrava já na entrada. Senti-me impotente e recuei. 




Lá fora, os bombeiros ainda não tinham chegado mas havia já uma concentração de pessoas à volta do sucedido. Da casa ao lado da nossa ouvia-se uma senhora a gritar que estava presa. Gritava por ajuda e dizia, entre soluços, que não conseguia sair. A saída dessa casa, um piso de altura abaixo da rua, fazia-se pela zona onde se localizava o foco do incêndio. A única hipótese seria retirá-la através do pátio que tinha um muro para a entrada da nossa casa. Ao perceber isto, depressa fomos ajudar os homens que estavam a puxar a senhora para subir um muro de aproximadamente 3 metros de altura. Em primeiro lugar, retiramos a senhora, que com muito esforço escalou a parede de cimento e, completamente traumatizada, se deixou ficar a chorar encostada a alguém. De seguida veio o filho. Uma criança de cerca de 12 anos que não dizia uma única palavra. Hirto e teso, puxamo-lo o mais depressa possível para a rua, onde ficou nos braços da chorosa mãe.






Depois de isto, muita coisa sucedeu. Eu estava em choque, perdido e sem saber em que pensar. Um pouco desamparado também. Quando chegaram os bombeiros vinham muito atrapalhados. As chamas já tinham chegado à nossa casa e as coisas pareciam já não ter volta a dar. Para além de terem demorado a perceber o foco do incêndio (não os culpo pois a geografia do sítio é complicada), a boca de incêndio da avenida alemania estava seca, sendo que tiveram de fazer a ligação por baixo. Entretanto, no meio deste cenário caótico e infernal, os bombeiros ligam de repente as mangueiras dando lugar a um espectáculo surreal em que dois bombeiros caem ao chão arremessados pela mangueira descontrolada. "Isto não pode tar a acontecer" dizia-me o J. Mas de facto estava, e o pior foi quando entramos na casa do vizinho de cima, que tinha um terraço para o terreno da nossa casa, e vimos com os nossos olhos, o verdadeiro panorama da situação. Ver de cima a casa a arder foi das imagens mais horripilantes que eu já vi. A efemeridade e fugacidade de um objecto tão cheio de histórias, memórias e valores impressionou-me. Foi um momento muito triste e estranho. A pouco e pouco o incêndio foi-se apagando até estar completamente extinto. À medida que o alarme e a adrenalina baixaram começamos a perceber a real magnitude da tragédia. O J. confessou-me algumas das suas perdas. Eu próprio ia pensando nas minhas, mas apenas para me aperceber que tinha guardado duas coisa bem essenciais. Foi aos poucos que me lembrei de certas coisas que me iam picando o coração. O caderno de viagens! A minha Yashica FX-3! Os meus documentos! Metade do salário que eu tinha ganho nesse mês e muitas outras coisas. 




A casa ficou reduzida a meia dúzia de paredes. A princípio pensei que tudo tinha acabado ali, enterrado naquele manto negro. Mas o resto desse dia e dos próximos foi passado a vasculhar os escombros em busca de alguns pequenos tesouros. O ambiente era louco. Não era propriamente um ambiente de cortar à faca, muito pelo contrário, tentávamos suplantar a nossa angústia com algumas piadas. O modo como o chilenos reagiram a tudo foi para mim incrível. Foi de facto estranho e surreal, ao estilo de um filme. Vasculhamos intensamente os escombros. Entre os objectos mais incríveis que se salvaram conto os seguintes: uma caixa de fósforos intacta (a ironia!), um top de lantejoulas douradas que ninguém reclamou, uma laranja, uma caixa de 25 ovos cozidos pelo fogo, uma garrafa de vinho do Porto Ferreira Vintage que o meu pai me tinha oferecido e a qual obviamente esvaziamos logo, umas luvas de látex da cozinha, uma porco mealheiro de plástico derretido, onde recuperamos imensas moedas de 10 pesos cilhenos (uma verdadeira caça ao tesouro!), entre muitas muitas outras coisas.
Os dias que sucederam ao evento foram também eles muito surreais, mas também muito importantes. Durante um mês e meio, vivi numa espécie de condição hippie. Houve uma mobilização gigante por parte dos chilenos que nos ajudaram imenso oferecendo roupa. A municipalidad ofereceu-nos colchões e uma caixa com alimentos básicos. De noite andávamos a pular de casa em casa e durante o dia "vivíamos" nos escombros, tentando limpar o sítio para que viessem buscar os destroços. Acabamos por ficar definitivamente alojados na calle placilla, a poucos metros da queimada miller, numa lindíssima casa laranja com pássaros pintados, enquanto procurávamos uma nova casa. 

Essa casa eu nunca cheguei a conhecer, mas tentei ajudar e participar o mais que podia para a encontrar, sendo que chegamos mesmo a fazer uma festa de angariação de fundos chamada Miller After Fire e que correu bastante bem.

Em placilla passamos bons momentos e fomos muito bem recebidos pelos seus habitantes. Foi uma época curta mas intensa para mim com pessoas que apesar de não conhecer à muito tempo, vão certamente ficar na minha memória para sempre."


O período que se seguiu tem as suas próprias histórias. Foi o fim da minha estadia em Valparaíso e sem dúvida um dos momentos mais importantes da minha vida, onde aprendi muita coisa sobre mim, sobre os outros e sobre o mundo. Sobre o incêndio, àparte de tudo o que aprendi, ficou uma história para contar aos netos. Apesar de não ter sido o momento alto da minha experiência no Chile, foi sem dúvida o momento que tornou a minha experiência totalmente distinta de qualquer outro dos meus colegas.


terça-feira, 2 de abril de 2013

De um descanso à moda germânica


Frutillar, Puerto Octay, Puerto Varas




            “Despejados” na Ruta 5, instalamos um sorriso de orelha a orelha e levantamos o dedo à caça de boleia. Depois de algum tempo, não muito, passado na companhia de uma yerba mate, parou um autocarro que nos poderia levar até próximo de Frutillar. Achamos estranho ser um autocarro e perguntamos quanto nos iria cobrar. A resposta foi simples e directa: “Mas afinal de contas vocês não estão a pedir boleia?”.
            Entramos e reparamos que o autocarro ia vazio. Era velho, esfarrapado e ferrugento. Na coxia havia uma roda inteira e alguns bancos estavam reduzidos a buracos. Estávamos sozinhos com o condutor, muito jovem, e a sua namorada. Pessoas muito simpáticas, que, pelo que tínhamos percebido, estavam a fazer uma viagem ocasional.
A calma acompanhou-nos enquanto fazíamos este troço da dita Panamericana. É uma estrada recta, tipicamente americana. As paisagens, como sempre, bonitas mas calmas, com um pôr-do-sol a aconchegar-nos. Viajamos assim por umas boas horas, poupando uns bons pesos. Partilhamos o lanche com o motorista e a namorada. Não conversamos muito e a certa altura, o autocarro começou a fazer um barulho muito estranho. Paramos na berma e o motorista abriu o capô para verificar o motor. Uma avaria era tudo menos aquilo que esperávamos! Após ter enchido o depósito de água, seguimos caminho, cada vez mais lentamente, até fazermos, durante algumas horas, uma distância mínima à velocidade de 20 km/h. Olhamos uns para os outros, sem saber muito bem o que fazer. Paramos de novo próximo de uma fonte de água, onde fomos todos, sem excepção, carregados os garrafões de plástico. Tudo isto rendeu-nos uns escassos kms, até chegarmos a uma estação de portagens, onde o motorista deixou o autocarro e, literalmente, se juntou a nós a pedir boleia para terminar o seu próprio caminho. Foi, de facto, surreal! Por respeito ao senhor, deixamos que fosse ele o primeiro a pedir boleia, não estragando as hipóteses mostrando que éramos 5. Além disso, um casal tem sempre muito mais probabilidades de arranjar uma boleia. Da nossa parte, estávamos a ponderar a hipótese de acampar por ali, caso fosse necessário. Os autocarros que passavam não paravam (pois iam já lotados) e os nossos amigos não demoraram muito até obterem sucesso. Ficamos algum tempo a pedir boleia, tendo como alvo principal os camiões que obrigatoriamente tinham de abrandar na portagem. Lembro-me que parou um enorme camião de tire, que pensamos querer oferecer-nos boleia, mas que na verdade apenas parou por igualmente ter um problema mecânico. Oferecemo-nos para ajudar mas a simpatia não era o forte deste senhor. Estivemos assim cerca de meia hora, até que um camião parou e disse: “Posso levar apenas 2”. Pensamos um pouco e decidimos que o E. poderia ir primeiro, juntando assim com a nossa colega chilena que nos esperava em Frutillar, enquanto eu e o E. continuaríamos à caça de uma boleia, que, caso não arranjássemos, teríamos de acampar por ali. Assim foi e a verdade é que não demoramos a que uma pequena camioneta parasse e nos levasse aos dois. Era um senhor muito simpático com um sotaque cerradíssimo, do qual não entemos um 87% do que disse. Deixou-nos portanto na ponte pedonal próxima a Frutillar e daí encontramo-nos com a C., a nossa amiga que nos levou de Frutillar de arriba para Frutillar de abajo, onde tinha a sua casa.
Fomos muito bem recebidos na sua casa. Tinha um cão muito simpático e fomos logo instalados em dois quartos. Sentimos um súbito regressar ao luxo da civilização e do sedentarismo! Com a C. fomos até ao centro, onde entramos num bar a tomar uma cerveja. Lembro-me de ter começado a reparar nos inúmeros sinais da influência alemã nesta zona do Chile. Para além do tipo de arquitectura, havia muitas escolas e casas alemãs. Provei uma cerveja local, chamada Salzburg. Era muito boa e no rótulo tinha uma javali. Perguntei se na zona existiam javalis e a resposta foi que não, “mas em Salzburg, terra do fundador da cervejaria, sim”. Fomos até à praia que dava para o lago Llanquihue, o maior lago exclusivamente chileno, e lá tomamos as nossas cervejas. Quando começou a choviscar decidimos voltar para casa. Ficamos ainda algum tempo numa saleta a ver televisão. Estava a decorrer o festival de Viña del Mar, um importante evento que se realiza todos os anos na Quinta Vergara e que nessa noite contava com a actuação do cantor dominicano Juan Luis Guerra, interpretando os clássico Burbujas de Amor. Deitamo-nos relativamente cedo, após um banho que nos retirou as camadas de sujidade dos últimos dias e dormimos aconchegados no luxo de umas camas quentes e confortáveis, ao som da chuva a bater no telhado.


No dia seguinte, tivemos direito a um pequeno-almoço muito bom e a C. disponibilizou-se a mostrar-nos Puerto Octay, uma cidade ali ao lado e um dos exemplares mais importantes da influência alemã. O tempo estava um bocadinho melhor e passeamos nas margens do lago. Apesar de tudo, não pudemos ver o vulcão Osorno, o grande atractivo. Depois de um pequeno passeio, voltamos para casa, onde nos esperava um almoço caseiro. Comemos pollo al jugo, que estava muito bom e no final tivemos direito a um kuchen de frambuesa e a ciruelas en calda com leite condensado. Foi um verdadeiro mimo!
A pedido nosso, fomos deixados novamente no cruzamento da Ruta 5, onde ficamos alguns minutos à espera do camião de tire que nos aceitou levar até Puerto Varas. O motorista era muito simpático e conhecia Espanha, tendo ficado muito entusiasmado com o E., chegando ao ponto de telefonar a uma amigo seu, espanhol, para falar com o próprio E. Foi uma situação caricata. A viagem foi naturalmente curta e ficamos algum tempo a passear por Puerto Varas. Uma cidade essencialmente de origem alemã e bastante turística. Passeamos um pouco pela cidade e visitamos a igreja. Demos também uma volta pela costa e descansamos um pouco com vista para o lago. Tentamos a nossa sorte a pedir boleia na rua principal que ia em direcção à cordilheira, mas não tivemos sorte. Acabamos por apanhar uma micro que nos deixaria em Ensenada, onde nos esperavam mais algumas aventuras.